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Artigos

26/7/2010

ECONOMIA CRIATIVA

O futuro desejável da comunicação, sob o ângulo de Lala Deheinzelin

Lala Deheinzelin

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Lala Deheinzelin, especialista em economia criativa

Escrevo este artigo como uma ficção embasada por minha experiência em consultoria para governos e empresas, os conceitos que dela derivam e as visões de futuro que resultaram dos workshops que realizamos. Parto de dois temas com que atuo, fundamentais para pensar comunicação em 2020: (1) economia criativa – a  grande estratégia de desenvolvimento sustentável do século XXI; (2) criação de futuros desejáveis – um processo essencial para gerar motivação, inovação e oportunidades.

Olhando imagens e visões do ‘passado do futuro’ fica claro que aquilo que vivemos hoje foi antes sonhado: telecomunicações, computação, carros, cidades, medicina diagnóstica, formas de lazer. Pelos meios de comunicação, tudo isso mobilizou nosso desejo e inseminou o presente. A comunicação não apenas relata mundos. Ela cria os mundos que relata. Portanto, tem papel fundamental na construção de outros modelos de negócios e de mundo necessários e possíveis.

Estamos em 2020.  Já está acontecendo a mudança de época que marca a passagem de milênios, da vida que se organizava em torno do material, tangível e finito (terra, ouro, petróleo) para esta outra época, em que o intangível é o elemento central. Isso porque na última década governos e empresas tiveram de trabalhar a partir da centralidade dos recursos que infinitos, se renovam e se multiplicam como o uso: cultura, criatividade e conhecimento. Ficou claro que não haveria possibilidade de desenvolvimento, sustentabilidade e qualidade de vida se os modelos econômicos e sociais seguissem baseados na exploração dos recursos materiais, que são finitos. Foi preciso aprender a fazer dos recursos intangíveis a ‘matéria-prima’ e a essência de uma nova economia da abundância, potencializada pelos infinitos oferecidos pelas novas tecnologias e a organização em redes e coletivos.

Foi preciso criar novos modelos, que não apenas tivessem resultados econômicos, como também resultados nas dimensões social, ambiental e cultural/simbólica (o quadripé da sustentabilidade). Foi aí que a Economia Criativa se consolidou como a grande estratégia de desenvolvimento sustentável do século XXI. E a comunicação se consolidou como o elemento facilitador e agregador, que permitiu a convergência e ação transdisciplinar necessárias para que isso acontecesse. Uma notícia que acelerou essa mudança foi o fato de, após a crise financeira de 2008, a China ter adotado a Economia Criativa como estratégia número 1 de desenvolvimento para o país (isso é real! Não é ficção). Muitos países, como o Brasil, desconheciam esse fato e empresas seguiam adotando políticas e prioridades obsoletas.

Nos últimos anos, as empresas perceberam que produtos e serviços se assemelham, e preço e qualidade são premissas, não diferenciais. Aquilo que pode ser garantia de longevidade, atratividade e fidelização é intangível: marca, design, inovação, atributos culturais, responsabilidade social e ambiental, liderança. Produtos e serviços se distinguem pelo tipo de experiência que provocam (hoje, o motor da economia é menos o produto ou o serviço e mais a experiência vivida, por isso turismo e entretenimento crescem tanto). Valores não são mais medidos apenas quantitativamente, mas qualitativamente. Mede-se não apenas resultado (visão de curto prazo), mas principalmente impacto (visão de médio prazo).

A reputação é a grande medida para o valor de uma empresa e instituição, é o que garante sua capacidade de seguir atraindo colaboradores para suas equipes e consumidores que desejem seus produtos e serviços. Vamos agora analisar alguns dos elementos que tornaram possível essa mudança, que, segundo os analistas atuais, colocou o mundo numa agenda que pode representar a solução para muitos dos maiores problemas do planeta e da humanidade.

Era da Informação ou Era da Criatividade? – Nesta década, ficou claro que a questão central não é tanto a informação disponível como a cultura e a criatividade que nos dão a capacidade de usá-la. Um paralelo: ter os ingredientes não significa ter o bolo. Falta a receita, o processo, o saber que/como usar. Isso orientou a reformulação da comunicação nesta década.

De produtos a processos – Nossos sonhos do passado mostravam um futuro em que a tecnologia, os produtos inventados, eram a solução para tudo. Hoje, sabemos que a tecnologia é meio, não fim, e isso reforçou ainda mais a necessidade de processos: mudar o jeito de pensar e fazer. A comunicação deixou definitivamente de estar vinculada apenas a produto (notícias e informações) e é cada vez mais processo (como conectar e integrar pessoas e sistemas):

Ecologia Sociocultural – Consideramos não apenas a ecologia ambiental (tangível) do século XX como a ecologia sociocultural (intangível), essa nova disciplina que integra de forma sistêmica as muitas disciplinas ligadas ao humano. Os ecólogos socioculturais são novos profissionais, que têm papel central nas decisões, nas esferas pública e privada, e unem comunicação, cultura, direito, economia.

Modems e conectores – No século XX, as telecomunicações e computação puderam evoluir graças ao ‘modem’ e sua capacidade de integrar e colocar em contato linguagens e sistemas diferentes. Neste século XXI, a mudança de época para a centralidade do intangível e da economia criativa só foi possível graças a profissionais e instituições que atuaram como ‘modem’, como conectores. Os novos profissionais e empresas de comunicação são ‘modems’ promovendo a necessária integração entre áreas de governo, setores de negócios, disciplinas.

Capital social, confiança, autoestima – A comunicação tem o poder de construir ou destruir a confiança e a autoestima (de pessoas, comunidades, empresas, cidades), de dizer se o santo de casa faz ou não milagres. Com medo e sem autoestima, não há autoconfiança, portanto não há confiança interpessoal, o que resulta na falta de capital social. E a chave de desenvolvimento está no capital social – o único que nos falta. A comunicação em 2020 é a da boa notícia, da diversidade cultural, da valorização do santo de casa, de tudo o que fortalece cooperação e a autoestima.

Tempo: único recurso não renovável – Os futuros desejáveis postados na wikifuturos revelam que, para muitos, o tempo é o recurso mais precioso. E o único que de fato não se renova... As novas tecnologias permitiram que conquistássemos o espaço e a quantidade: estamos em muitos lugares simultaneamente. Mas com isso perdemos o tempo e a qualidade...A Comunicação 2020 não apenas nos ajuda a otimizar o tempo como a recuperar e ampliar o desfrute, a intensidade, o sentido que estavam se perdendo na primeira década deste século.

Consequências e escolhas – Entre 2010 e 2020 o excesso de informação e demanda, a escassez de tempo e a urgência na mudança rumo à sustentabilidade fizeram com que saber escolher e ter percepção das consequências de cada ato fossem prioridades. A Comunicação tornou-se a ferramenta para facilitar escolhas e explicitar consequências.
 

Conclusão

Nossa história mostra que a comunicação é o que nos diferencia como espécie e que a criação e aprimoramento de suas ferramentas – linguagem, símbolos, escrita, imprensa, tecnologia digital – foi o responsável pelos saltos de nossa evolução. O futuro ainda não é. Pode ser de muitas maneiras. E a comunicação tem poder criador, ao semear as ideias, as visões e os processos que podem construir o mundo melhor que não apenas é desejável, como possível.

 

Lala Deheinzelin é especialista internacional em economia criativa, sustentabilidade e futuros. Desenvolve seu trabalho por meio de consultoria, palestras e oficinas para empresas, governos e instituições multilaterais. Saiba mais em www.laladeheinzelin.com; www.criefuturos.com; www.wikifuturos.com

Lala é uma das convidadas do Ciclo Comunicar Inovação, semana temática de 29 de julho a 6 de agosto.
 


COMENTÁRIOS( 1 )





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Luiz Mauro Gonçalves Dos Santos       29/7/2010 03:52:06
Tema esclarecedor e visionario pretendo usar as dicas na vida profissional e no meu crescimento humano, financeiro, intelectual o assunto sbordado vai me fornecer uma direçao e interpretaçao do passado recente e a conectibidade com o mundo atual.

 
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