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Entrevistas

28/7/2010

COMPORTAMENTO

Silvio Meira: 'o presente é o lugar de construção do futuro'

Mariana Gouvêa

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Silvio Meira, cientista-chefe do Centro de Estudos Avançados do Recife

O futuro é construído no presente, e por isso, é preciso se preparar agora. Novas tecnologias, modos de trabalho e a própria velocidade das mudanças nos colocam a necessidade de absorver os atributos que caracterizam o profissional do futuro. Esses e outros pontos foram levantados por Silvio Meira, cientista-chefe do Centro de Estudos Avançados do Recife (C.E.S.A.R), presidente do Conselho de Administração do Porto Digital e professor de Engenharia de Software do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco.

Especialista em inovação e responsável, como ele próprio se define, por “descobrir perguntas ao invés de arranjar respostas”, nessa entrevista, que fez parte de uma reportagem da revista Comunicação 360°, o pesquisador pincela o futuro tecnológico e profissional da próxima década. O trabalho e pensamento de Meira nos inspiram a inovar e, a partir de amanhã, 29 de julho, a 6 de agosto, promoveremos o Ciclo Comunicar Inovação, semana especial em que todo o conteúdo do Nós da Comunicação estará focado em comunicação e inovação. Confira a entrevista a seguir e participe do Ciclo.

Nós da Comunicação – Quando se fala de futuro, uma das primeiras coisas em que pensamos é a evolução tecnológica. Há 10 anos, por exemplo, não eram tantos os brasileiros que tinham um telefone celular. Hoje, a internet mobile virou recurso comum para muitas. Até que ponto se pode prever o futuro da tecnologia?
Silvio Meira –
Se você tentasse prever o futuro no ano 2000, por exemplo, seria difícil dizer que todos terão smartphones em 2015. Mas uma das tendências que se pode estabelecer com toda certeza é que no médio prazo – 5 anos – todos os phones serão smart. Então uma tendência inarredável do futuro próximo é que a internet e a tecnologia estejam com você. Também vejo que, se a demanda por comunicação e computação móvel tiver respaldo no ambiente regulatório, grande parte do que fazemos hoje no computador será feita em smartphone. E a obviedade é que, se todos os phones serão smart, passarão a não ser mais chamados de smartphones. Isso porque em primeiro lugar, não estamos falando de phones. Hoje, esse instrumento, que ainda atende pelo nome de telefone celular, é ferramenta na qual o telefone é apenas uma das aplicações, e não a principal.

Nós da Comunicação – O que significa participar da construção do futuro?
Silvio Meira –
É tentar entender quais são as possibilidades que podem se transformar em realidade. Por exemplo, existe uma porção de meninas querendo namorar o Justin Bieber. Algumas acham que existe uma possibilidade real de transformar isso em parte de seus futuros. E isso é o futuro real para uma em 50 milhões – então, não é um plano de futuro. Por outro lado, que tal aprender a falar inglês? Considerando que é a língua mais falada no mundo dos negócios; que, em qualquer país do mundo, falando inglês, você se comunica; um bom plano de futuro é pensar que está na hora de aprender inglês. E trabalhar para que isso aconteça. Da mesma forma, é preciso constatar que a internet vai virar uma linguagem comum e que saber simplesmente usá-la não é o suficiente. Mandar e-mail, entrar em um site, criar uma conta, participar de uma rede social, fazer upload de um vídeo não serão diferencial competitivo. O diferencial será entender que a internet é um ambiente de inovação, em cima do qual podemos construir. A hora de se preparar para fazer essa construção é agora. Quem não fizer, daqui a alguns anos, vai descobrir um bocado de meninos de 20 anos que fizeram e vai se perguntar como eles aprenderam. Foi no passado, construindo um pedaço do futuro.

Nós da Comunicação – Quais são os empecilhos para a entrada nesse futuro?
Silvio Meira –
O pior, e talvez o mais crítico, é que nunca conseguimos, em nenhum estágio de desenvolvimento da humanidade, levar todos para o futuro ao mesmo tempo. Um número muito grande de pessoas sempre sobra e se perde – porque não viram oportunidade, não se dedicaram, não havia alguém se preocupando com elas. Aparentemente, é uma situação que não tem jeito. Mas podemos minimizar o número de pessoas que teremos que carregar no braço para o futuro – ainda mais se uma parcela suficientemente grande entender que o futuro tem tudo a ver com elas e que elas têm que trabalhar para não fazerem parte do legado compensatório da sociedade.

Nós da Comunicação – O que você diria para quem se assusta com a perspectiva de ficar conectado o tempo todo?
Silvio Meira –
Se a pessoa tiver essa necessidade e não estiver fazendo isso, deveria se preocupar imediatamente. Se você é gerente e perdeu uma oportunidade de emprego porque queriam te dar um Blackberry e você precisaria estar conectado o tempo todo, isso significa que logo você será inútil no mercado de trabalho. As empresas não conectadas têm destino: o grande cemitério do CNPJ. No mercado de trabalho, vão aparecer as pessoas que passaram os últimos 15 anos na internet, dentro de um ambiente de mobilidade, e elas estão prontinhas para assumir o lugar de quem não se preocupa em estar conectado. Quem tem 40 e poucos anos tem que ficar esperto e começar a aprender a usar, com proficiência, as ferramentas que as pessoas de 20 usam. Senão, serão trocadas por elas. É tão simples quanto isso. Sempre foi assim.

Nós da Comunicação – Existe uma ‘profissão do futuro’?
Silvio Meira –
Se você quer uma profissão do futuro, entenda de software, de programação. Isso vale para todas as áreas. A mola motriz da sociedade da informação e do conhecimento é software. Quem souber fazer software tem um diferencial competitivo enorme, porque todo o resto do planeta vai depender de quem faz. Se você não souber escrever software – e não se trata de usar uma linguagem de programação sofisticada, complexa, mas saber qual é o software da sua profissão e como se ajuda a escrevê-lo –, definitivamente terá um problema de competitividade no futuro próximo. Se você imaginar que conseguirá sobreviver sem saber programar em um mundo totalmente programável, está sendo basicamente levado pelos acontecimentos. Está sendo um objeto.

Nós da Comunicação – Como se preparar para esse futuro profissional?
Silvio Meira –
É preciso olhar para os lugares de onde vem o futuro e, quando aparecer o próximo Twitter, não esperar três anos para entrar em uma rede que passa a ser uma parte considerável do processo de entendimento do mundo. Não podemos parar de cortar árvores na velocidade em que cortamos 50 anos depois de quando já sabíamos disso. Precisamos de gente com uma visão mais ampla do mundo, que olhe para nossa história, nosso presente, e traga o futuro, considerando os erros que já sabemos ter cometido.

Nós da Comunicação – O modo de trabalho atual comporta o futuro?
Silvio Meira –
O problema é o conjunto empresas-pessoas-legislação. A legislação exige que as pessoas batam ponto. É o trabalho semi-escravo a serviço do capital. Recuso-me a fazer parte desse cenário. Desde que saí da universidade, não bati ponto um dia sequer. Como minha atividade é intelectual, posso fazer em dois dias um trabalho que levaria meses, ou talvez passe dois meses sem conseguir produzir nada. Além da infraestrutura legal, as pessoas também estão despreparadas para um cenário de trabalho verdadeiramente intelectual. Elas querem bater ponto, porque foram treinadas para isso. São adestradas para chegarem de manhã, baterem seu ponto, fazerem alguma coisa – mesmo que irrelevante – e saírem no fim do dia com cara de feliz. Somos treinados para ser esse animalzinho de escritório. Para que isso mude, é preciso mudar o sistema educacional. E vai levar uns cem anos para isso mudar.


COMENTÁRIOS( 1 )





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Leonardo Bragança       14/8/2010 00:41:33
"O diferencial será entender que a internet é um ambiente de inovação, em cima do qual podemos construir. A hora de se preparar para fazer essa construção é agora". Perfeito! Outro "pensador digital" que compartilha dessas ideias é o Carlos Nepomuceno, que destaca pontos bem parecidos, como a necessidade de "filosofar" a tecnologia, e entender a internet como estratégia, não como uma caixa de ferramentas. Quem ficar nessa onda "ferramenteira", vai ficar pra trás.

 
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